Celebridade

Bailarinas do Bolshoi assistem ao jogo da Rússia contra a Espanha

A história de uma foto

Marcos Rogério Lopes

Raymonda, balé em três atos, é um clássico entre os clássicos. Foi apresentado pela primeira vez em 19 de janeiro de 1898 no Teatro Mariinsky, de São Petersburgo. Criado pelo coreógrafo franco-russo Marius Petipa com música de Alexandre Glazunov para o brilho da italiana Pierina Legnani (1868-1930), uma das grandes bailarinas da história, virou cânone. Nunca deixou de ser revisitado, aprimorado. Foi no papel de Jean de Brienne, de Raymonda, que Rudolf Nureyev conquistou o ocidente, depois de desertar do Kirov, abandonando a União Soviética. Era julho de 1964, e o mundo nunca mais seria o mesmo depois da apresentação do London Royal Ballet com aquele jovem tártaro que fazia parar o tempo. Foi como se Pelé decidisse deixar a bola correr de um lado, ele para o outro, e o goleiro Mazurkiewicz perdido, sem saber o que agarrar, as mãos desesperadas ao vento, sinalizando o desespero diante da magia.

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Bruna Cantanhede Gaglianone e Erick Swolkin: Bruna Cantanhede Gaglianone e o namorado Erick Swolkin© Instagram Bruna Cantanhede Gaglianone e o namorado Erick Swolkin

Raymonda, enfim, não é para amadores. São 19h30 de domingo, 1º de julho, na coxia do Teatro Bolshoi, em Moscou. O primeiro ato já começou. As bailarinas se preparam para entrar em cena, de tutus e sapatilhas. No Estádio Lujniki, russos e espanhóis começam a disputa de pênaltis. Lá no palco, ao som de Glazunov, há uma série de pliés e jetés. Nos bastidores, um grupo de 28 bailarinas (seis das quais solistas) prepara-se para entrar no palco – vão dançar a cena dos sonhos do primeiro ato de Raymonda.

“Tínhamos televisão nos camarins, mas como já estávamos perto de entrar, ligamos o celular para acompanhar até o último segundo possível”, disse a VEJA a brasileira Bruna Gaglianone, maranhense de 27 anos, bailarina do Primeiro Corpo de Baile do Bolshoi. “Entre uma entrada e outra, íamos para o celular”. Levemente atrás das colegas, Bruna decidiu fazer a foto que rodaria o mundo, pelo Instagram. Ela está recuada. Outras seis estão debruçadas na tela, magnetizadas. Um carregador devidamente encaixado na tomada compõe o enquadramento, o detalhe que não poderia faltar, vai que…

O retrato é uma versão moderna, em tempos de memes, de Stories, de Snapchat, da delicadeza das bailarinas de Degas do começo do século XX. É uma homenagem a duas modalidades da beleza criada pela civilização: o balé e o futebol. “Ninguém podia gritar, porque o espetáculo estava rolando”, diz Bruna. Ela ainda teve tempo, um pé no taco, já vendo a plateia, de fazer um filminho de poucos segundos no qual registrou duas companheiras, russas, celebrando a magistral defesa – como num balé – de Igor Akinfeev, o goleiro que pôs a Rússia nas quartas-de-final da Copa do Mundo. Bruna filmou, deixou o smartphone com um ajudante e foi seguir seu sonho, a estreia como uma das seis solistas de Raymonda.

Formada pela escola do Bolshoi de Joinville, ela vive em Moscou desde 2011. Mora com o namorado, também brasileiro, Erick Swolkin, com quem divide um orgulho – terem juntos dançado um pas de deux no segundo ato de Nureyev, também em cartaz no Bolshoi nessa temporada de verão do futebol. As bailarinas de Bruna, coladas ao smartphone, são uma das grandes imagens desta e de todas as outras Copas. O namorado Erick é corintiano fanático. O pai e o irmão, botafoguenses de escol. E ela? “Prefiro ficar neutra, torço para os dois”.

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