Celebridade

Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017. O anúncio foi feito nesta quinta-feira, 5, em Estocolmo.

Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017

Escritor nipo-britânico é autor de sete romances

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo
Kazuo Ishiguro
Kazuo Ishiguro Foto: EFE/Jeff Cottenden/ Faber and Faber
Kazuo Ishiguro é o Prêmio Nobel de Literatura de 2017. O anúncio foi feito nesta quinta-feira, 5, em Estocolmo. A Academia atribuiu a distinção a ele “que, em seus romances de grande força emocional, revelou o abismo sob a nossa ilusória noção de conexão com o mundo”. Depois da escolha pouco ortodoxa em 2016, com Bob Dylan, a premiação voltou a escolher um escritor mais tradicional: Ishiguro é conhecido por seus sete romances, lançados entre 1982 e 2015 (quatro deles, e um livro de contos, publicados no Brasil pela Companhia das Letras). + Análise: Kazuo Ishiguro faz literatura sutil sobre a memória
“É uma honra magnífica”, disse Ishiguro à BBC britânica nesta quinta-feira, 5. “Principalmente porque isso significa que estou seguindo os passos dos maiores escritores que já viveram, então esse é um elogio formidável.” Quando a emissora falou com ele, o escritor disse que ainda não tinha haviado contato do comitê do Nobel, e não sabia se a notícia era um boato. Ishiguro disse esperar que o Nobel seja uma força para o bem. “O mundo está num momento muito incerto e eu espero que todos os Prêmios Nobel sejam uma força para algo positivo nessas circustâncias. Eu vou ficar muito emocionado se puder ser parte de algum tipo de clima este ano contribuindo para uma atmosfera positiva nesses tempos bastante incertos.” + Nobel de Medicina vai para descobertas sobre relógio biológico “Se você misturar Jane Austen e Franz Kafka, e adicionar um pouco de Marcel Proust, e aí misturar, mas não muito, pode-se ter uma ideia do trabalho de Ishiguro”, disse a secretária permanente da Academia Sueca, Sara Danius, logo após a divulgação. “Ele desenvolveu um universo estético muito próprio.” Questionada sobre a obra pouco numerosa de Ishiguro (são sete romances desde 1982), Danius disse que a Academia recompensa um corpo de trabalho, “mas esse conceito pode significar muitas coisas”. + Kazuo Ishiguro volta ao romance com ‘O Gigante Enterrado’ “Ele é muito interessado em entender o passado, não para redimi-lo, mas para explorar o que deve ser esquecido, para sobreviver, em primeiro lugar, como indivíduo ou sociedade”, concluiu. Em entrevista ao Estado em 2015, Ishiguro explorou suas preocupações com a memória (particular e social). “Escrever é minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos”, disse na ocasião. “É o que me faz voltar ao conflito central do romance: é melhor preservar alguma lembrança que ponha em risco aquela sociedade ou seria mais prudente esquecê-la para preservar a paz?” + Análise: Prêmio Nobel de Química, uma grande surpresa positiva O Gigante Enterrado, seu romance mais recente lançado em 2015, é uma curiosa incursão por uma Inglaterra medieval, cuja população sofre com ameaças que vão de uma invasão de ogros até uma misteriosa névoa que estimula o esquecimento. Ele disse, porém, ter evitado influências externas como a de Game of Thrones, por exemplo. “Toda sociedade tem algo enterrado na memória graças à ação de uma força bruta. Em meu romance, questiono se essas lembranças não estão de fato enterradas e se elas, ao ressurgirem, não podem provocar um novo ciclo de violência. Isso leva a um novo dilema, pois não sabemos se é melhor provocar mesmo um conflito para então recomeçar ou se seria melhor manter essa memória enterrada e esquecida”, disse o autor ao Estado. Na entrevista, ele também se revelou fã de Bossa Nova: “adoro João Gilberto e Roberto Menescal”. + Nobel da Física vai para ondas gravitacionais Ishiguro nasceu em Nagasaki, no Japão, em 8 de novembro de 1954, mas sua família se mudou para o Reino Unido quando ele tinha cinco anos. Ele só voltaria ao Japão depois de adulto. Depois de se graduar em filosofia e escrita criativa no fim dos anos 1970, ele lançou seu primeiro romance, A Pale View of Hills, em 1982, e desde então se dedica totalmente à literatura. Seu livro seguinte foi An Artist of the Floating World (1986). Esses dois primeiros romances se passam em Nagasaki, poucos anos após a Segunda Guerra, e os temas aos quais a escrita de Ishiguro é associada já estão presentes aqui: tempo, memória e desilusão. O romance seguinte, Vestígios do Dia (1989), recebeu o Man Booker Prize daquele ano e é provavelmente seu trabalho mais conhecido (um filme com Anthony Hopkins fez sucesso em Hollywood). Clique aqui para ler um trecho do livro. + Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro teve obras adaptadas para o cinema, como ‘Vestígios do Dia’ Segundo a Academia Sueca, a escrita de Ishiguro é marcada por um modo de expressão cuidadosamente contido, independente da trama. Seus romances mais recentes, porém, enveredam por temas mais ou menos fantásticos. Não Me Abandone Jamais (2005) traz três clones criados para doar órgãos, mas envolvidos em questões puramente humanas, como a solidão e um senso angustiante de desilusão. Leia um trecho. Influências musicais já eram sentidas nessa obra, mas com Noturnos: Histórias de Músicas e Anoitecer, a única coletânea de contos de sua carreira, a música tem papel central nas relações entre os personagens, espalhados pela Europa. O livro saiu no Brasil em 2010 (leia um trecho). Seu romance mais recente é justamente O Gigante Enterrado, em que a fantasia se relaciona com a realidade para explorar temas como o esquecimento e a memória. Além dos seus oito livros (sete romances e uma coletânea de contos), Ishiguro também escreveu roteiros de filmes e para a TV.  
Fonte: http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,kazuo-ishiguro-e-o-premio-nobel-de-literatura-de-2017,70002028435

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