Celebridade

Para Bolsonaro e seus amigos íntimos é “Hélio Negão”.

A sombra de Jair Bolsonaro

Aonde Bolsonaro vai, Hélio Lopes, o Negão, vai atrás. Tanto que, para se eleger deputado federal, ele usou o nome de Hélio Bolsonaro. Agora, é unha e carne do presidente

Ary Filgueira / istoe.com.br

Hélio Fernando Barbosa Lopes (PSL-RJ) é seu nome de batismo, mas foi graças ao apelido de “Hélio Bolsonaro” que ele acabou eleito deputado federal. No cadastro de registro da Câmara, ele é Hélio Lopes. Para Bolsonaro e seus amigos íntimos é “Hélio Negão”. Apesar da profusão de nomes e alcunhas, Hélio repete como mantra: “Deus no céu e Bolsonaro na terra”. Para esse fluminense de Queimados, cidade na região metropolitana do Rio de Janeiro, não se trata de um exagero. Hélio considera Bolsonaro o responsável por sua trajetória vitoriosa. Aquele que o segurou pela mão e transformou-o no deputado federal mais votado do Rio. Não é por acaso que Hélio Negão aparece quase sempre grudado a Bolsonaro, fazendo cenário de fundo a diversas entrevistas e lives do presidente. “Foi uma troca”, explica um deputado amigo de Hélio.

Durante a campanha presidencial, o então candidato do PSL foi denunciado por racismo ao se referir de maneira desrespeitosa a cidadãos quilombolas. “Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas”, disse Bolsonaro à época. Bolsonaro chegou a ser condenado a pagar R$ 50 mil por ter ofendido a população de origem negra. O dinheiro foi destinado ao Fundo Federal de Defesa dos Direitos Difusos. Para retirar a pecha de racista, o amigo Hélio aceitou colar-se a Bolsonaro. Que, por sua vez, emprestou nome e sobrenome ao amigo afrodescendente. Juntos, os dois caminharam, um para a Presidência da República e o outro para a Câmara dos Deputados.

Hélio não cansa de exaltar o nome do seu criador, atribuindo a ele a fama que passou a ter. “Ele é o cara mais humano que já conheci”, repetia, em voz alta, na terça-feira 26, no Salão Verde da Câmara. Mal completara a frase, foi abordado por um grupo de pessoas que pedia para tirar foto ao lado dele. Ele não conseguiu atender todo mundo e houve gente que se queixou. “Que pena. Não posso falar com o irmão do meu presidente?”, indagava uma mulher.

Queimados é parte da Baixada Fluminense, uma das regiões mais pobres e violentas do Estado do Rio de Janeiro. Foi ali que Hélio nasceu e cresceu. A casa onde morava sequer tinha água encanada. Para superar as dificuldades, Hélio fez como muitos jovens em condição semelhante que não optam pela criminalidade. Engajou-se nos quadros do Exército. Na carreira militar, chegou a subtentente. Foi para a reserva como capitão, mesma patente de Bolsonaro.

“Para mim, é Deus  no céu e Bolsonaro  na terra” Hélio Lopes, deputado federal (PSL-RJ)

O hoje presidente não o conheceu na caserna, mas já nos tempos de deputado federal. Boa parte de sua agenda política destinava-se a visitar quartéis. Foi em um deles que conheceu o militar Hélio. A partir daí, tornaram-se amigos. Hélio era presença constante no escritório político que Bolsonaro tinha no bairro de Bento Ribeiro, na zona Norte do Rio. As famílias tornaram-se amigas. Hélio e seus dois filhos viraram frequentadores da casa de Bolsonaro.

Em 2014, veio a ideia de disputar uma vaga de deputado federal, seguindo os passos de Bolsonaro do Exército para a política. Hélio filiou-se ao PTN. Não conseguiu seu intento. Sua indicação como candidato não foi aprovada pelo partido. Em 2016, optou, então, por um início político mais modesto: candidatou-se a vereador em Nova Iguaçu, cidade vizinha a Queimados. Estava no PSC que era à época a mesma legenda de Bolsonaro. Hélio perdeu novamente. Obteve somente 480 votos, e outra vez não foi eleito.

Álibi anti-racismo

Muitos amigos chegaram a aconselhar Hélio a desistir da política. Mas a onda Bolsonaro nas eleições do ano passado alterou a situação. Hélio tinha boa parte do perfil que o eleitorado começava a exigir: reputação honesta, inclinação ideológica de direita, origem militar e crítico da corrupção. O empurrão final foi dado pela fala desastrada de Bolsonaro no Clube Hebraica do Rio de Janeiro, que lhe rendeu a condenação cível por racismo. Naquela ocasião, Bolsonaro declarou que, caso fosse eleito, não destinaria recursos para ONGs e que não haveria “um centímetro demarcado” para reservas indígenas ou quilombolas. “Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos que mudar isso daí. Eu fui num quilombo, e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador ele serve mais”.

Após a declaração, Bolsonaro sugeriu a Hélio que se filiasse ao PSL e disputasse uma vaga de deputado. Começou a levá-lo comícios e caminhadas. Emprestrou-lhe o próprio sobrenome. “Bolsonaro me enxergou”, repete. Abençoado por Bolsonaro, Negão pode enfim ver realizado o sonho de ser eleito. E acabou sendo o campeão de votos no estado do Rio de Janeiro, com 345.234 votos, desbancado o favorito Marcelo Freixo (PSOL), que obteve 342.491. É como diz o velho ditado: uma mão lava a outra.

   

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Ronny
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